domingo, 26 de julho de 2009

Não Há Crimes Perfeitos ?

Há dias assim: apetece descontrair com um livro mais ligeiro.

Isto a propósito da feira do livro do Continente, onde encontrei o livro que dá título a este Post e que, após folheá-lo, decidi que o tom da escrita poderia dar uns momentos de riso descomprometido.

Estamos perante um autor que mostra uma boa relação com a escrita e que se entretém a "falar" directamente para o leitor.

O primeiro personagem principal - Carta Branca - é de um humor simples e directo, o que leva a uns momentos de leitura onde o riso é natural.

Dos diversos conhecimentos, que Carta Branca espalha no livro, dois têm de ser retidos:
  • A adoptar no meu local de trabalho: G.P.O. (É favor ler o livro para saber o que é);
  • Ter atenção às designações dadas a departamentos ou serviços: estes serão designados pelas suas iniciais (e depois lá vêm as confusões).
A imagem do investigador frio, duro e descrente em Deus é abalada pela ternura que Carta Branca tem pela avó (isto, claro, lendo sem ironia o apelo de Carta Branca aos aforismos da ternurenta senhora).

Quanto ao outro personagem principal - Bonifácio - é apenas mais um "Bom Malandro" (*1) dos que andam por aí a tentar imitar os "Malandros do Costume" (*2).

Quanto a D. Perpétua: paz à sua Alma.

De resto, sem estarmos perante uma obra maior, o livro proporciona uma tarde de praia descontraída e bem humorada.

(*1) - Espero que o Mário Zambujal não afine com a utilização do termo.
(*2) - Não sei quem possa afinar com a utilização deste termo por desconhecer o autor, mas, desde já, fica aqui a confissão que aquele não foi inventado por mim, pelo que qualquer conotação política do mesmo não é da minha exclusiva responsabilidade.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Combateremos a Sombra


Que sombra ?
A Realidade foge-nos e e toda a nossa luta não alcança os responsáveis mas apenas as suas sombras.
Mas a Esperança fica e sabemos que só o combate nos permitirá alcançar um outro viver.
Não vou vaguear pelas páginas nem pela leitura que fiz deste romance para não correr o risco de frustrar prazers alheios.
Leiam, opinem e recomendem.

domingo, 17 de junho de 2007

Jerusalém na Lusitânia

Da série de "livros negros" de Gonçalo M. Tavares este Jerusalém inquieta-nos por a estranheza destas histórias nos parecer tão familiar na vida quotidina.
Procurar um "ciclo do mal" na vida da Humanidade, como quem afirma que a História se repete, tentando reduzir o ser Humano a um objecto de análise estatística, o que permitiria prever os "maus-ciclos" e prevenir as suas consequências, apresenta-se tão absurdo como ameaçador.
Absurdo porque, apesar dos horrores e destruição que tem provocado, a Humanidade tem maior riqueza do que aquela que se possa reduzir a fórmulas matemáticas, por mais complexas que sejam, onde nem tudo é previsível ou racional. Felizmente.
Ameaçador porque se GMT descobriu que Theodor Busbeck o queria fazer então alguém pensará assim e poderá arrastar crentes consigo.
Mas o autor vai tentar mostrar-nos o contrário através dos restantes personagens, fazendo-nos crer que a riqueza da vida está na sua própria complexidade e na tentativa de a compreender, o que nos pode levar à loucura.
Aliás este é um livro que, numa primeira leitura, parece tratar da loucura, mas que no fim, a meu ver, trata do medo.
O medo nas suas diversas formas, enquanto inibidor do melhor que a Humanidade tem e catalizador do pior de que somos capazes.
Depois deste livro, tenho dúvidas se a loucura não é apenas fruto do medo.
Sem que saiba bem porquê, não pude deixar de associar o tema deste livro ao actual clima do país, onde a loucura e o medo se parecem ter instalado em todos os níveis da sociedade: governantes que debitam discursos insanos sobre desertos, para tentar justificar (mal) decisões, funcionários superiores que apoiam (se é que não fomentam) a denúncia (o que indirectamente é um convite ao espiar do "outro") e consomem dinheiros públicos com processos, que nenhum valor trazem, porque alguém sob as suas ordens pertence à "cadeia nacional de divulgação das anedotas governamentais", juízes que condenam pais adoptivos, que o são por omissão e fuga do pai biológico, a anos de prisão por amarem uma criança, e a lista poderia continuar.
É por isto que acho que temos um "Jerusalém na Lusitânia".
Mas no próximo dia 27 de Junho o Gonçalo M. Tavares lá estará na Comunidade de Leitores da Almedina para nos elucidar.
Entretanto leiam e apreciem.
Já agora aproveitem os Jardins da Gulbenkian para ler, o ambiente é ideal.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

A Gaivota


Um moço que conheço, que percebe mesmo de coisas de literaturas e teatros, explicou-me uma vez que as peças de Tchekov estão todas mal amanhadas. Para começar, a acção é pouquíssima: o que de mais prometedor pode acontecer a uma personagem é matar-se, o que infelizmente nem sempre consegue. Depois, têm assim quilos daquelas falas monologais muito pouco subtis, só para o público ficar a saber dos passados das personagens e coisa e tal. Mas, pior que tudo, as conversas são muitas vezes desencontradas, quase não se percebendo quem é que está a falar com quem, e desaguando amiúde ora em silêncios ora em lado nenhum. Eu acrescentaria uma quarta da minha lavra: os nomes são esquisitíssimos. Por exemplo, diz um tal Yakov: “Konstantin Gavrilovich, ainda vamos ali abaixo, tomar um banho”. Konstantin Gavrilovich é fixe, não é? O melhor nome que poderíamos imaginar para alguém a quem queremos dizer que vamos ali abaixo tomar um banho. Não é? Sejamos sérios, pragmáticos, e amantes do PSI-20: houvera bom senso e Tchekov nunca rangeria nas tábuas de um palco – ou, se por azar rangesse, logo o público decente dormiria a sono solto, zzz.
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Porém, há um milagre esquerdo que faz com que Tchekov seja um dos dramaturgos mais representados do mundo. E, mais bizarro ainda, haja um público que o adore: um jovem professor primário que sonha com o surf que faz ao fim de semana; uma funcionária de lavandaria especializada em tratar de nódoas de esparguete à bolonhesa; um empregado de balcão duma loja de cobertores, lençóis e atoalhados ali na Baixa; uma adolescente desengraçada com muitas dúvidas, borbulhas, e um urso de peluche cor-de-rosa; um torneiro mecânico aposentado que gosta de dar milho aos pombos no Jardim da Estrela; uma arquitecta dedicada à recuperação de casas a cair de podre; ah, já me esquecia, e também um informático resmungão e mal-disposto, que sou eu; ah, e já me esquecia outra vez, mais uns bons milhares e milhares e milhares de pessoas vindas desses mundos todos longe e perto...
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Porquê? Não sei.
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O ano passado vi A Gaivota, de Tchekov, feita pelo Teatro da Cornucópia. A Gaivota, de Tchekov, feita pela Cornucópia tinha um grande defeito: saiu de cena antes que todos os milhares e milhares e milhares de corações unidos pelo fio tchekoviano tivessem tido oportunidade de ver a peça pelo menos umas cinco vezes. Porém, parece que este ano resolveram remediar um pouco a coisa e lá repuseram o espectáculo – embora com o defeito do costume: só irá estar em cena até 24 de Junho de 2007. Ora eu não quero sugerir a ninguém que vá ver A Gaivota, de Tchekov. Ninguém sugere a ninguém que se apaixone por alguém, a menos que seja tonto. Ainda por cima, por alguém um bocado mal amanhado e a fugir às regras. Todavia. Todavia... Todavia.
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A GAIVOTA de Anton Tchekov

Tradução Fiama Hasse Pais Brandão
Encenação Luis Miguel Cintra
Cenário e figurinos Cristina Reis
Desenho de luz Daniel Worm d’Assumpção
Distribuição Dinis Gomes, Duarte Guimarães, Luis Lima Barreto, Luis Miguel Cintra, José Manuel Mendes, Márcia Breia, Ricardo Aibéo, Rita Durão, Rita Loureiro, Teresa Sobral e Tiago Matias.

Teatro do Bairro Alto, Lisboa

De 31 de Maio a 24 de Junho de 2007
De 3ª a sábado às 21:00, domingo às 16:00

quinta-feira, 17 de maio de 2007

JRS 632 CODEX

Hoje quero falar de O CODEX 632, de José Rodrigues dos Santos. Confesso que hesitei antes de: o romance tem um título bué de tramado. Não tanto por causa do 632, já que é um número prodigiosamente divisível pelo primo 79, o que o torna francamente mais interessante que tentar perceber porque há hoje tanta gente a querer ser presidente da CML. A coisa está mais no códex. É que códex rima com coisas tão modernaças quanto soporíferas como sejam o Simplex, os duplex, os próprios colchões Colunex, e ainda com o googolplex, que é um 10 seguido de um googol de zeros, um número tão grande, tão grande, que há quem arrisque ser ainda maior que a fila de trânsito no IC19 em hora de ponta. Enfim, nada de muito excitantex.

Todavia, parece que códex foge a esta geração. O códex, invenção da civilização romana, melhorou de facto o mundo. Como vós provavelmente sabereis – eu não sabia, mas tenho desculpa, que sou informático – códices são os objectos que substituíram aqueles rolos de manuscrito enrolados à volta de um pau que um lente, para conseguir divisar, tinha que ir desenroscando e desenroscando e desenroscando, enquanto rogava pragas por ninguém ter ainda engendrado algo de mais prático. Ou seja, códices não são mais que livros a sério, fisicamente organizados em folhas protegidas por uma capa, lombada com título, código de barras, e referência do ISBN (acho que estas últimas inovações não remontam aos romanos, mas isso agora não interessa).

Então porque se chama O CODEX 632 o romance de JRS? Não digo, não faltava mais nada que começar a contar por aqui a história. Eu só estive a falar no assunto para entreter e encher linhas. Mas posso adiantar que se trata de um romance de espionagem, em que o 007 de serviço está às ordens de sua majestade, D. João II. Todavia não tirem conclusões precipitadas: o herói do romance não é o nosso agente secreto, mas um professor na Nova de Lisboa. Porquê? Não vou explicar, leiam o romance se quiserem. Ah, e também entra uma sueca, loura e bem servida de seios. O que é que ela faz? Bom... não estavam à espera que eu vos contasse aqui, pois não?

Eu li com agrado o CODEX por três motivos. Primeiro, porque além de façanha de espiões, o 632 é um bom romance histórico. Partindo de investigações controversas (v.g., de Mascarenhas Barreto), vê-se que JRS queimou as pestanas na matéria, tecendo uma bela intriga que não intruja onde não é de bem que um romance especulativo intruje: antes fantasia honesta, alegre e livremente a partir de factos e documentos, ao invés de verter iluminices a partir de mentirolas e artistices. Não é o CÓDIGO DA VINCI, portanto.

Segundo, porque é um livro de aventuras que dispensa grandes explosões, assassínios em massa, e salvamentos de donzelas das bocarras de talibãs opus-deiónicos com superpoderes malignos e uma cicatriz na testa do tamanho do novo aeroporto da OTA. Ah! E nenhum personagem é descendente em linha directa de Jesus Cristo e Maria Madalena. Dizia, portanto, que não é o CÓDIGO DA VINCI. De todo.

E terceiro – e sobretudo, para mim, este terceiro – porque JRS sabe escrever páginas e páginas de longos diálogos que dá gozo ler. Não pela naturalidade, humor, feição, forma, sentido da vida, segredo profundo do universo, última palavra de Deus, qual o próximo programa da TVI em que vão entrar jet-setes, etc., mas tão só porque são boas conversas de expor argumentos. Assim com se fossem entrevistas com pessoas com algo a dizer, mas em que nem entrevistador nem entrevistado estivessem preocupados com ao raio da posição da câmara ou do botão do gravador. Apenas isto, mas é fixe. Ou lixado… para quem goste do CÓDIGO DA VINCI.

E para concluir, adianto que a trama de O CODEX 632 descreve um círculo. E bem redondinho, por acaso! Agora, claro que não vou explicar o que quero dizer com isto. Se quiserem saber – é fácil – leiam o romance.